Princípios básicos da Homeopatia para o criador de cavalos
Dr. Elias Carlos Zoby
Homeopata Veterinário
R. Ricardo César de Melo, 308. (Antiga R. Natal) Pinheiro. Maceió - AL
(82) 3338-4439
Naturalmente o
leitor mais imediatista gostaria de encontrar somente dicas práticas,
truques, receitas e tais num artigo sobre Homeopatia aplicada aos
cavalos. Mas seria o mesmo que Nelson Piquet tentar ensinar a pilotar
em Fórmula 1 através de um artigo na internet. Ou, para ficarmos em
casa, o treinador de cavalos de salto ensinar sua arte escrevendo a
alguém que nunca sequer caiu de uma sela (ou "sartou de prancha", como
dizia meu avô quando eu, garoto, chegava em casa machucado porque caí
do cavalo).
Medicina homeopática requer conhecimento de
fisiologia, patologia, anatomia, clínica e, somente após aprender essas
disciplinas, de Homeopatia em teoria e prática.
Por isso, apenas uma pincelada será dada aqui.
A Homeopatia já era antevista por Hipócrates (c. 400
A.C.). Este dizia que os medicamentos poderiam curar por um dos dois
princípios: dos contrários ou dos semelhantes.
C. F. Samuel Hahnemann, médico alemão, em fins do
Século XVIII, descobriu como utilizar o princípio dos semelhantes ao
traduzir um livro de W. Cullen em que este relatava os efeitos da
intoxicação pela casca da quina (Cinchona
off.). Esta é rica em quinino, o qual ainda hoje é usado para
tratar a malária. Cullen descrevia sintomas tóxicos exatamente iguais
ao quadro típico da malária, mas dava explicações pouco lógicas para os
bons efeitos da quina. Hahnemann, que tinha vasta cultura geral e
médica, imediatamente desconfiou que podia estar ali a confirmação da
teoria de Hipócrates sobre a cura pelos semelhantes. E começou a tomar
ele mesmo a droga, depois experimentou em seus familiares, produzindo o
mesmo quadro geral invariavelmente. Testou com outras substâncias,
entre elas o arsênico, e disso concluiu que havia um princípio: similia
similibus curentur.
Mas essas experimentações eram feitas com
doses tóxicas e causavam quadros deveras incômodos e perigosos, para
dizer o mínimo.
Começou a diluir as substâncias e, talvez inspirado
na alquimia, dinamizá-las. Essa nova preparação dos medicamentos
mantinha as propriedades patogenéticas e curativas ao mesmo tempo que
diminuía os efeitos tóxicos mais grosseiros e fazia surgir outros mais
sutis e individualizantes. Por exemplo, a diarréia já não ocorria a
qualquer hora do dia, mas em determinados horários ou com determinados
acompanhantes. E esses novos elementos individualizantes eram vistos
apenas causados por certas substâncias e não por outras. Se muitas
intoxicações causam diarréia, isso quase de nada serve para indicar,
num quadro de doença, qual o medicamento mais adequado. Mas se a
substância quando dinamizada provoca diarréia com determinadas
características de horário, circunstância, desencadeante, cor, odor
etc. isto serve para indicá-la, pelo princípio dos semelhantes,
preferentemente a outras.
Assim Hahnemann buscava sempre a menor dose capaz
de causar sintomas e de curar.
Com o tempo foram estabelecidas regras para diluição e
número de sucussões, chegando às centesimais e, posteriormente,
quinquagésimas milesimais. A partir de certo ponto é ultrapassado o
número de Avogadro (capacidade de dispersão das moléculas, entre 9 e 12
C) e não existe mais matéria detectável no preparado.
Quatro pilares foram estabelecidos para aplicação
prática da Homeopatia:
- Princípio dos Semelhantes;
- Dose mínima;
- Medicamento único;
- Experimentação no indivíduo saudável.
O princípio dos semelhantes e dose mínima já
foram explicados.
O uso do medicamento único decorre do primeiro
princípio. Se os sintomas experimentais foram obtidos com determinada
substância, ao encontrar-se um paciente com um quadro de doença é
preciso procurar a substância que produza o mesmo quadro. E não adianta
juntar diversas substâncias que tenham produzido partes daquele quadro
porque não há absolutamente nada a indicar que se elas fossem
experimentadas ao mesmo tempo produziriam sintomas semelhantes àqueles
do doente. Ao contrário, a experiência mostrou que ao serem
experimentados medicamentos compostos, produziram sintomas diferentes
dos das substâncias simples.
A experimentação no saudável é necessária para
obter-se apenas os sintomas produzidos pelo medicamento e não
misturados a uma doença pré existente.
As características individualizantes citadas anteriormente -
horário, circunstância... - são chamadas modalidades, ou seja,
modificadores; enquanto as características de cor, consistência, odor
etc. são chamadas de qualificadores.
As modalidades e qualificadores são dos elementos
mais importantes para a escolha do medicamento porque quando combinados
apontam em geral para pouquíssimos remédios, ou mesmo para apenas um.
Os sintomas homeopáticos podem ser de todos os tipos
e níveis: mentais, sensoriais, funcionais ou lesionais. Os últimos são
os menos importantes porque há menos possibilidades de individualização
nas lesões e também porque as experimentações não foram levadas ao
ponto de causar lesões, quando estas surgiram foram apenas por acidente.
As experimentações são organizadas em livros
chamados de matérias médicas e repertórios. Matérias médicas contêm os
sintomas de cada medicamento como um conjunto. Repertórios contêm
abreviações dos sintomas e uma lista dos medicamentos que os produziram
ou curaram.
Matéria médica é nossa farmacologia e repertório
nosso "antibiograma".
Na consulta homeopática são investigados todos os
aspectos da vida e doença do paciente, em busca daqueles elementos que
sejam mais individualizadores. Quase de nada servem os sintomas comuns
das doenças, senão para o diagnóstico da patologia. O mais importante é
o diagnóstico do medicamento mais indicado, o simillimum.
Posteriormente vem a escolha da dinamização e dose, estas são assunto
de experiência e sensibilidade de cada paciente.
Creio que, além do princípio dos semelhantes, a
maior diferença da Homeopatia é seu conceito de enfermidade e cura.
Enfermidade é o conjunto dos sinais e sintomas que indicam o desvio
do estado de saúde normal, que permite o desenvolvimento do pleno
potencial do indivíduo, incluindo os padrões de comportamento e todos
os demais aspectos físicos, psíquicos e espirituais. Então, se
egoismo é algo normal, dada nossa pouca evolução moral, o exagero em
relação à espécie, cultura e meio é sintoma. Se gostar de capim é
normal aos cavalos, entretanto é sintoma num macaco. E esses são
sintomas muito mais importantes do que diarréia ou abscesso, porque
mais individualizadores. Diferenciam aquele indivíduo dos outros da
mesma espécie submetidos às mesmas condições e patologias.
A doença não é a entidade clínica, mas todos os
sinais e sintomas que indiquem algum grau de anormalidade, e a entidade
clínica é apenas parte do conjunto. Por consequência, o conceito de
cura também é diferente. Cura é o restabelecimento da normalidade do
indivíduo que devolva-lhe os instrumentos são e livres para atingir
seus mais altos fins existenciais.
Um cavalo deve cavalear, um gato deve gatear e um
cachorro deve cachorrear. Seja lá o que for isso.
A crítica mais banal que se faz à Homeopatia é de
que não é sabido como ela funciona. Ora, alguém deixa de levar choque
por não conhecer os princípios da eletricidade? Alguém não é
anestesiado pela inalação de éter apenas por não saber sobre
evaporação? Todos os que estudaram química há mais de 25 anos
aprenderam que o átomo era composto de prótons, neutrons e elétrons.
Hoje é sabido que há muito mais elementos envolvidos, até o próprio
conceito de átomo já é questionado, e nem por isso qualquer propriedade
química foi modificada.
"... o exato mecanismo de ação do captopril ainda
não foi completamente elucidado." (Bula do medicamento) E os compêndios
e bulários estão cheios de notas como essa quando se referem ao
mecanismo de ação das drogas.
Outras críticas são que ela age lentamente ou só
funciona em casos sem gravidade. Não vou discutir a pecha de efeito
placebo porque esta é inútil frente a veterinários.
A ação do medicamento homeopático é imediata. Mas o
processo de cura dependerá de quanta lesão esteja envolvida, o que é
decorrente do conceito de enfermidade. Embora os sintomas que ameacem a
vida ou causem grandes sofrimentos sejam imediatamente eliminados,
porque se não o fossem o processo de cura não poderia prosseguir. Nos
organismos vivos há mais elementos envolvidos do que o simples
agrupamento de células.
O que diferencia um corpo morto daquele na fração de
segundo imediatamente anterior à morte? Certamente não é a composição
química. Alguma coisa nele se esvaíu, a isso chamamos energia vital.
Essa energia que mantém a vida atua com certas propriedades e uma delas
é a de preservar as funções e órgãos mais importantes em detrimento dos
menos nobres. Por isso os sintomas e sinais que, a continuar, extinguem
a vida são imediatamente melhorados sempre que o grau de lesão o
permitir. Quando isso não é possível sobrevém o que se costuma chamar
de morte.
O funcionamento apenas em casos de menor gravidade
não se sustenta frente aos casos clínicos descritos na literatura.
Todos esses argumentos contrários à prática
homeopática são falácias, ou seja, falsidades que parecem verídicas,
verossímeis, mas não passam de sofismas.
Homeopatia Populacional
Esta é uma área ainda pouco explorada. O uso dessa
medicina para melhorar os aspectos físicos e comportamentais dos
rebanhos, prevenindo doenças e outros problemas.
Particularmente no MS, RS e SP seu uso está
crescendo junto aos criadores de bovinos de corte e leite. Os que
adotam essa prática já não gastam com carrapaticidas; diminuíram a
quase zero os índices de mastite, tristeza parasitária e outras
parasitoses internas e externas.
Em PE atendemos bovinos de corte e leite que após
alguns meses não precisaram mais de parasiticidas. Também resolvemos
casos de linfadenite em rebanho de ovelhas Santa Inês.
O gado cresce saudável e mais tranquilo, desde que
sejam supridas suas necessidades de alimentação, espaço e exercícios.
Os medicamentos são usados para otimizar a absorção
dos nutrientes e diminuir a susceptibilidade às doenças.
Então, se a propriedade possui bons pastos mas
alguns minerais não se encontram no solo em quantidades ideais a
Homeopatia pode melhorar a absorção desses elementos por parte dos
animais. Desde que não haja carência próxima da absoluta.
Sem comida boa e espaço para exercício não há
remédio que dê jeito.
Aos Cavalos
Particularmente nesses animais a
Homeopatia age incrivelmente rápido e de forma facilitada para o
veterinário.
- Porquê? Se pergunta o leitor.
Porque o homeopata precisa conhecer detalhes do
comportamento e modo de ser do paciente, além dos detalhes da própria
patologia.
Enquanto os cães são animais inteligentíssimos e
capazes de demonstrar com clareza seu modo de ser, o relato feito pelos
proprietários vem mesclado às próprias idéias e sintomas do humano que
convive com ele. As pessoas fazem muita transferência de seu psiquismo
para os cães.
Então seria mais fácil que não houvesse essa
transferência, mas que o animal fosse suficientemente inteligente para
interagir e expressar seus sentimentos, gostos, desgostos, vontades
etc.. No cavalo temos esse indivíduo: inteligente e expressivo mas
independente das transferências.
Entre as doenças que mais afetam os cavalos estão as
do aparelho locomotor. Do ponto de vista utilitário e evolutivo esses
animais têm sua vida centrada nos membros e neles surgem mais
frequentemente os problemas. São entorses, tendinites, fraturas por
esforço, linfangite etc. Todas doenças crônicas que tendem a voltar e
piorar quanto mais os membros sejam solicitados.
O homeopata trata esses problemas de forma rápida e
definitiva através de medicamentos e outras medidas higienodietéticas.
Um Pouco de Fisiologia e Comportamento
Os equinos não têm armas naturais
para combate corpo a corpo. Se os bovinos têm os chifres, os carnívoros
têm as presas e garras... e podem brigar muito bem, os equídeos só
sobreviveram como espécie graças à sua capacidade de fugir. Isto se
reflete em sua incrivelmente aguçada audição, capacidade de dormir em
pé, além da velocidade e resistência para se locomover.
Sempre viveram em manadas, com muitas fêmeas e
poucos machos. E a hierarquia era respeitada, ou contestada na raça. Os
machos corriam atrás das fêmeas e não montavam em outros do mesmo sexo.
No que se refere à alimentação, eles são herbívoros
naturais. Portanto todo seu organismo evoluiu para digerir vegetais
ricos em fibras, além das proteínas, vitaminas etc.
Do exposto acima é fácil concluir que o cavalo tem
sua natureza gritando por espaço, companhia e vegetais fibrosos.
A Violência
Quando se prende um animal desses
numa baia e sua alimentação fica baseada em concentrados pobres em
fibras, o organismo simplesmente não dá conta.
O corpo do cavalo não foi feito para isso. Ele foi
feito para, ainda que debaixo de chuva e frio, buscar seu alimento em
grandes pradarias, andando o dia todo, correndo ao menor sinal de
perigo, deitando-se nos descampados onde possa sentir a vibração do
solo e a viração do vento com seus odores e sons... e fugir se houver
ameaça.
Numa baia, servido de concentrados, só andando
quando o humano acha que está na hora dele fazer exercício, seus
instintos e sua fisiologia estão sendo violentados o tempo todo.
Olhe para aquelas orelhas que se movimentam como
antenas, para aquelas narinas que parecem querer aspirar o mundo. Veja
aqueles cascos que batem no chão e fazem o bicho levantar-se como um
raio ao menor sinal de perigo. Tenha olhos de ver!
Seu corpo grita por exercício e ele, sem saber o que
fazer, começa a desenvolver tiques e manias.
Seus ossos, não sendo exigidos com tanta frequência,
não precisam mais de tanto cálcio. Não precisam ser tão fortes. Seus
músculos perdem parte da elasticidade, força e resistência. Qualquer
atleta humano acha que isso é óbvio e talvez que nem precisasse ser
dito.
Mas subitamente o cavalo é tirado do cubículo,
selado e posto a dar grandes saltos, corridas por caminhos que não
foram escolhidos por ele (talvez se pudesse escolher ele desse uma
súbita guinada e fosse por aquela outra passagem onde há menos buracos
ou galhos se chocando contra sua canela) e freiadas com um peso de 100
Kg em suas costas. Muitas vezes essa carga é de mais do que 20% de seu
próprio peso.
Os ossos, músculos e tendões sofrem, e surgem as
lesões.
Seu intestino, coitado, é do tipo longo, feito para
digerir alimentos fibrosos que entram aos poucos o dia inteiro. O que
fazer com aqueles cereais tão ricos mas tão pouco volumosos dados de
uma só vez? Entra em paranóia, se contrai desordenadamente. Cólica!
Prevenção
Então, a primeira providência
para quem pretende ter cavalos sadios é deixar que ele viva da forma
pela qual evoluiu e sobreviveu por milhares de anos.
Se quiser melhorar, dê-lhes concentrados em pequenas
quantidades. O suficiente para suprir as deficiências de sua pastagem
que talvez seja muito bonita mas sem aqueles matinhos chamados
leguminosas.
E, se quiser ter um animal forte, contente e
em boa saúde, não vá contra sua natureza.
Ou então continue gastando com remédios caros e pouco
eficientes e aposentando animais ainda jovens, inteligentes, de grande
capacidade de trabalho e valiosíssimos.
A Natureza é implacável. Melhorá-la, aprender
a usá-la a nosso favor, sim! Violentar, não!